Pele de Gato

Pele de Gato
Samba Minha Vida

PELE DE GATO RECOMENDA

- Buraco do Galo - Em Oswaldo Cruz, Roda de Samba de primeira comandada por Edinho Oliveira com as maravilhosas Pastoras , ambiente familiar cerveja em garrafa e tira-gostos saborosos,vale apena conferir, todo primeiro sábado do mês - Rua Dna Vicência

- Sambastião - Na Rua do Russel - Glória , Roda de Samba apadrinhada por Ataulpho Alves Jr. acontece aos sábados na praça Luiz de Camões (grátis) horário de 15:00h as 22:00h. Cerveja gelada,caldos e tira-gostos maravilhosos.

- Terreiro de Crioulo - Na rua do Imperador 1075 - Realengo - acontece sempre nos segundos sábados de cada mês , muito partido Alto , Jongo e Sambas de Terreiros, a roda é comandada por Paulo Henrique Mocidade.

- Samba da Ouvidor - Esquina da Rua do Mercado e em frente a Rua do Ouvidor , acontece de 15 em 15 dias aos sábados com início ás 15:00h(confira datas no blog do Samba do Ouvidor)-

Vale a Pena Ver

- Noel Poeta da Vila -Filme contando parte da vida de Noel Rosa. -(Muito Bom)

- "O Mistério do Samba" - Documentário sobre a Velha Guarda da Portela. - (Ótimo)

- Música para os Olhos - Documentário sobre a vida de Cartola. - (Bom)
- Nas batidas do Samba - Documentário sobre a evolução do Samba.- (Ótimo)

- A Elegância do Samba - Documentário sobre a vida de Walter Alfaiate. - (Bom)

"UM SENHOR DE RESPEITO" - SÉRIE PUXANDO CONVERSA

PARTIDO ALTO

CLUBE DO SAMBA

LUGARES,SAMBAS E BAMBAS 04


                   MORRO DE MANGUEIRAESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA           


 
                         

Morro de Mangueira
A favela surgiu a partir de alguns barracos nas terras do Visconde de Niterói. Desde 11 de maio de 1852, quando se inaugurou nas proximidades da Quinta da Boa Vista o primeiro telégrafo aéreo do Brasil, a elevação vizinha da Quinta era conhecida como Morro dos Telégrafos. Pouco depois, foi instalada ali perto uma indústria com o nome de Fábrica de Fernando Fraga, que produzia chapéus e que, em pouco tempo, passou a ser conhecida como "fábrica das mangueiras", já que a região era uma das principais produtoras de mangas do Rio de Janeiro. Não demorou muito para que a Fábrica de Fernando Fraga mudasse para Fábrica de Chapéus Mangueira. O novo nome era tão forte que a Estrada de Ferro Central do Brasil batizou de Mangueira a estação de trem inaugurada em 1889. A elevação ao lado da linha férrea também começou a ser chamada de Mangueira, enquanto o antigo nome de Telégrafos permaneceu para identificar apenas uma parte do morro. Atualmente, Telégrafos, Pendura Saia, Santo Antônio, Chalé, Faria, Buraco Quente, Curva da Cobra, Candelária e outros são pequenos núcleos populacionais que formam o complexo do Morro de Mangueira.
O Visconde de Niterói, que recebeu o morro de presente do Imperador D.Pedro ll  já era falecido quando os primeiros moradores instalaram os seus barracões, e outros, mais espertos, construíam moradias para alugar, como foi o caso do português Tomás Martins, padrinho do futuro compositor e poeta Carlos Cachaça, que aos oito anos de idade vivia no morro, e aponta o padrinho como o verdadeiro fundador do Morro de Mangueira, por ter sido o primeiro a explorá-lo como local de moradia. Aos dez anos, Carlos Cachaça tinha a incumbência de assinar os recibos dos aluguéis, já que o português Tomás Martins era analfabeto.
Em 1908, a prefeitura carioca decidiu reformar a Quinta da Boa Vista e, para isso, demoliu dezenas de casinhas ali construídas por soldados que serviam no 9° Regimento de Cavalaria. Com a permissão de carregar os restos da demolição para onde bem entendessem, os militares escolheram instalar-se no Morro de Mangueira. Outro fato que serviu para aumentar a população da área foi o incêndio que, em1916, destruiu inúmeros casebres do Morro de Santo Antônio, no centro da cidade. Surgia assim em Mangueira uma comunidade de gente pobre, constituída quase que na totalidade por negros, filhos e netos de escravos, inteiramente identificada com as manifestações culturais e religiosas que caracterizavam esse segmento social e racial. Do Natal ao Dia de Reis, em 6 de janeiro, conjuntos de pastores e pastorinhas percorriam o morro entoando as suas cantorias. Os católicos construíram uma capela a Nossa Senhora da Glória, que passou a ser a padroeira do morro. O Candomblé e a Umbanda tinham muitos adeptos, e alguns casebres serviam de templos, sendo o principal deles o de Tia Fé, (Benedita de Oliveira), uma mineira (segundo Carlos Cachaça) ou baiana (segundo o neto Sinhozinho, presidente da Estação Primeira na década de 70), que trajava diariamente de baiana, e em cuja casa realizavam-se as grandes festas de Mangueira. Em 1935, houve uma tentativa de descendentes do Visconde de Niterói de despejar os moradores do morro, mas estes foram socorridos pelo prefeito Pedro Ernestro. Uma nova tentativa, em1964, feita por um português de sobrenome Pinheiro, que dizia ter adquirido os bens da família Saião Lobato, esbarrou num decreto do governador Carlos Lacerda, desapropriando todo o Morro de Mangueira.

ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA
Em 1910, Tia Fé cria o rancho carnavalesco Pérolas do Egito. Entre blocos, ranchos e cordões, outras agremiações surgem depois, tais como Guerreiros da Montanha, Trunfos da Mangueira e Príncipe das Matas. Em 1926, a Mangueira já era um reduto de sambistas, representados no concurso na casa de Zé Espinguela, em 1929, pelo então bloco Estação Primeira. A partir daí sua história se confunde com a história do Carnaval, e de sua mais popular agremiação carnavalesca, a Estação Primeira.
Formado por grandes sambistas do Bloco dos Arengueiros, tais como Cartola, Carlos Cachaça, Zé Espinguela e Saturnino Gonçalves, entre outros, estes abandonaram a idéia deste bloco para em 1928 criar o Estação Primeira, que mais tarde se tornaria a atual escola de samba.
Também existiu na década de 30 a escola Unidos da Mangueira, porém não durou muitos anos.
Arengueiros
                              
Nos dias de hoje temos na Mangueira a feijoada que e realizada no 2º sábado de cada mês com início as 12:00 h Em sua quadra na Rua Visconde de Niterói ,Nº 1072 -  esquina com o Buraco Quente (localidade bem conhecida na Mangueira)

                     
CIDADÃO DA MANGUEIRACARTOLA

                         
Angenor de Oliveira nasceu em 1908 na cidade do Rio de Janeiro. Era o primogênito dos oito filhos do casal Sebastião Joaquim de Oliveira e Aída Gomes de Oliveira. Apesar de ter recebido o nome de Agenor, foi registrado como Angenor - fato que só viria a descobrir muitos anos mais tarde, ao tratar dos papéis para seu casamento com Dona Zica na década de 1960. Para não ter que providenciar a mudança do nome em cartório, a partir de então passou a assinar oficialmente seu nome como Angenor de Oliveira.
Nascido no bairro carioca do Catete, onde também passou parte de sua infância. Quando tinha oito anos, sua família se mudou para as Laranjeiras, onde ele se tornou torcedor do time do bairro, o Fluminense. Lá nas Laranjeiras, entrou em contato com os ranchos carnavalescos União da Aliança e Arrepiados - neste último tocava cavaquinho ( que lhe tinha sido dado pelo pai quando tinha somente 8 ou 9 anos de idade) e nos desfiles do Dia de Reis, em que suas irmãs saíam em grupos de "pastorinhas". Era tão entusiasmado pelo Arrepiados que ao participar, mais tarde, da fundação da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, sugeriu que as cores daquele rancho - o verde e o rosa - fossem as mesmas da nascente agremiação, que seria um símbolo dos mais reverenciados no mundo do samba. Na verdade, Carlos Cachaça disse que tinha existido no Morro de Mangueira um antigo rancho chamado Caçadores da Floresta, cujas cores eram exatamente o verde e o rosa.
Em 1919, movidos por dificuldades financeiras, os Oliveira foram para o Morro de Mangueira, então uma pequena e nascente Favela com menos de cinquenta barracos. Logo, conheceria e se tornaria amigo de outro morador da Mangueira, Carlos Cachaça, seis anos mais velho que Cartola, e que se tornaria, além de amigo por toda a vida, o seu parceiro mais constante em dezenas de sambas.
Quando tinha 15 anos, abandonou os estudos (tinha concluído apenas o quarto ano primário) para trabalhar, ao mesmo tempo em que se inclinava para a vida boêmia. Na adolescência, trabalhou como aprendiz de tipógrafo, mas logo se transformou em pedreiro. Foi enquanto trabalhava nas obras de construção, que ele ganharia o apelido com que se tornaria reconhecido como um dos grandes nomes da música popular brasileira. Para que o cimento não lhe caísse sobre os cabelos, resolveu passar a usar um chápeu-côco, que os colegas diziam parecer mais uma cartolinha, e assim, começou a ser chamado de "Cartola".
Tinha 17 anos quando sua mãe morreu. Pouco depois, após conflitos crescentes com o pai, inimigo da malandragem, acabou expulso de casa. Levou então por algum tempo uma vida de vadio, bebendo e namorando, frequentando zonas de prostituição e contraindo doenças venéreas, perambulando pelas noites e dormindo em trens de subúrbio. Esses hábitos o levaram a se enfraquecer fisicamente, adoecido e mal-alimentado, na cama de um pequeno barraco. Uma vizinha do seu barraco chamada Deolinda – uma mulher gorda, forte e boa, sete anos mais velha, casada e com uma filha de dois anos – passou a cuidar e a gostar dele. Os dois acabam se envolvendo. Tinha na época apenas 18 anos e estava morando sozinho. Decidem viver juntos e Deolinda deixa o marido, levando a filha que o compositor irá criar como sua.

O surgimento do sambista

O barraco dividido por Cartola e Deolinda era habitado por mais gente, todos sustentados pela dona de casa, que lavava e cozinhava para fora. Sob seu teto e de Deolinda, Noel Rosa foi se abrigar algumas vezes, à procura de um refúgio tranqüilo. Cartola exercia a atividade de pedreiro apenas esporadicamente, preferindo assumir o ofício de compositor e violonista nos bares e tendas locais. À época, já se firmava como um dos maiores criadores do morro, ao lado do grande amigo Carlos Cachaça e Gradim.
Com estes e outros compositores, Cartola integrava uma turma de brigões e arruaceiros que, não por acaso, formaram o Bloco Arengueiros, em 1925, para brincar o carnaval. Esse bloco seria o embrião da ERstação Primeira de Mangueira. A ampliação e fusão do bloco com outros existentes no morro, gerou, em 28 de abril de 1928, a segunda escola de samba carioca e uma das mais tradicionais da história do carnaval da cidade. Cartola, um dos seus sete fundadores (também assumiu a função de diretor de harmonia da escola, em que permaneceu até fins da década de 1930); Estação Primeira, porque, contando a partir da Central do Brasilç, o morro de Mangueira ficava a primeira estação de trem de um lugar em que havia samba. Cartola compôs "Chega de Demanda", o primeiro samba escolhido para o desfile e que só seria gravado pelo compositor em 1974, para o disco "História das Escolas de Samba: Mangueira".
No início da década de 1930, Cartola se tornou conhecido fora da Mangueira, quando foi procurado por Mário Reis, através de um estafeta chamado Clóvis Miguelão que subira o morro para comprar uma música. O sambista vendeu os direitos de gravação do samba "Que Infeliz Sorte", que acabou sendo lançado por Francisco Alves, pois não se adaptava à voz de Mário Reis. Assinava então Agenor de Oliveira. Vendeu outros sambas a Francisco Alves, maior ídolo da música brasileira na época, cedendo apenas os direitos sobre a vendagem de discos. Neste comércio – que serviu para projetá-lo entre os sambistas na cidade –, Cartola conservava a autoria e não dava parceria a ninguém.
O rapaz foi lá e disse: "Cartola, vem cá. O Mário Reis tá aí, queria comprar um samba teu". "O quê? Comprar samba? Você tá maluco, rapaz? (...) Eu não vou vender coisa nenhuma." (...) Ele disse: "Quanto é que você quer pelo samba?". Eu virei pro cara, no cantinho, disse assim: "Vou pedir 50 mil réis". "O quê, rapaz? Pede 500." (...) Com muito medo, pedi 500 contos. "Não, dou 300. Tá bom?" Eu disse assim: "Bom, me dá esses 300 mesmo". Mas com muito medo (...) Mas botou meu nome direitinho, legal (...). Ele comprou, mas não deu para a voz dele. Então gravou Chico, Francisco Alves.

 Cartola, sobre o samba "Que Infeliz Sorte", Almanaque da Folha

Em 1932,Francisco Alves e Mário Reis,
 gravaram outro samba seu, "Perdão, Meu Bem". Também remonta àquela época a amizade e a parceria que Cartola estabeleceu com Noel Rosa. Com o "poeta de Vila Isabel", compôs "Tenho Um Novo Amor", interpretada por Carmem Miranda, "Não Faz, Amor" e "Qual Foi o Mal Que Eu Te Fiz", interpretadas por Francisco Alves. Ainda naquele ano, Sílvio Caldas lançou "Na Floresta" (de autoria de Cartola, do próprio Sílvio e ainda a primeira composição em parceria com Carlos Cachaça). Também em 1932, a Mangueira foi campeã do desfile promovido pelo jornal "O Mundo Esportivo" com o samba "Pudesse Meu Ideal" (sua primeira parceria com Carlos Cachaça)).
Em 1933, Cartola viu pela primeira vez um samba seu se tornar sucesso comercial: "Divina Dama", novamente na voz de Francisco Alves Arnaldo Amaral gravou "Fita Meus Olhos" (com B. Vasquez), canção que encerrava o breve ciclo inicial de gravações de composições suas. A partir dali, o sambista passou a compor exclusivamente para a sua escola no morro, marginalizando-se do círculo artístico e de produção discográfica da cidade.
Em 1935, novamente a Mangueira teve premiado no desfile um samba de Cartola, "Não Quero Mais" (feito com Carlos Cachaça e Zé da Zilda)), que foi gravado, em 1936, por Araci de Almeida e regravado, em 1973, por Paulinho da Viola, com o título alterado para "Não Quero Mais Amar A Ninguém".
Em 1940, Cartola foi convidado pelo maestro e compositor erudito Heitor Villa-Lobos, seu admirador, a formar um grupo de sambistas - entre eles,Donga, Pixinguinha e João da Baiana- para fazer algumas gravações de música popular brasileira para outro maestro mundialmente famoso, o norte americano Leopold Stokowski (que percorria a América Latina recolhendo músicas nativas), realizadas a bordo do navio Uruguai (ancorado no Pier da Praça Mauá, no Rio de Janeiro). Dos sambas que Cartola gravou a bordo do navio, "Quem Me Vê Sorrindo"(composto com Carlos Cachaça) saiu em um dos quatro discos de 78 rpm, lançados comercialmente apenas nos EUA pela gravadora Columbia. Além da sua primeira gravação, foi registrado nesse álbum o coro da Mangueira com as vozes de Dona Neuma e de suas irmãs, a clarineta de Luís Americano, emboladas de Jararaca e Ratinho, a flauta de Pixinguinha, além das participações de Donga e João da Baiana e um arranjo de Villa-Lobos para o tema indígena Canidé Joune.
Popular, Cartola também atuou como cantor na rádio, apresentando músicas suas e de outros compositores. Ainda em 1940 criou com Paulo da Portela, o programa A Voz do Morro, na Rádio Cruzeiro do Sul, no qual apresentavam sambas inéditos, cujos títulos deviam ser dados pelos ouvintes. Assim, o programa premiava o ouvinte que tivesse sugerido o título escolhido para o samba. Em 1941, formou, junto com Paulo da Portela e Heitor dos Prazeres, o Conjunto Carioca, que durante um mês realizou apresentações em um programa da Rádio Cosmos, da cidade de São Paulo. Em 1942, "Não Posso Viver Sem Ela" (parceria com Alcebíades Barcellos) foi lançada no famoso disco"Ai Que Saudades da Amélia", de Ataulfo Alves.
Gosto de fazer samba de dor de cotovelo, falando de mulher, de amor, de Deus, porque é isso que acho importante e acaba se tornando uma coisa importante

 Cartola, comentando sua obra, Almanaque da Folha

Tempos difíceis

Nos anos seguintes, Cartola participou pouco no cenário musical. Entre suas poucas atuações artísticas, o sambista apareceu como corista da gravação de alguns cantores na Colúmbia e chegou a se apresentar com um grupo de morro no Cassino Atlântico.
Com a nova direção da Estação Primeira de Mangueira antipática a Cartola, o sambista viu seu samba ser desqualificado pelo júri que julgou as músicas concorrentes ao enredo que representaria a escola de samba no carnaval de 1947. Para piorar, ele contraiu menigite, ficando três dias em estado de coma e um ano andando de muleta. Com vergonha da condição de doente, acabou se mudando para Nilópolis. Foi cuidado por Deolinda, mas pouco depois assistiu à morte da mulher, vitimada por um ataque cardíaco. Com a morte de Deolinda, deixou o Morro de Mangueira
Por um período de cerca de sete anos, andou desaparecido dos seus conhecidos. Fora do ambiente musical, muitos pensavam até que tivesse morrido. Chegou-se a compor sambas em sua homenagem. Em 1948, a Mangueira sagrou-se campeã do carnaval do RJ com seu samba-enredo "Vale do São Francisco" (com Carlos Cachaça).
Cartola vivia um período difícil em sua vida. Sem mais a atenção de Deolinda e o prestígio no morro da Mangueira, o sambista morava em uma favela no bairro do Caju, com uma mulher chamada Donária. Data dessa época a composição "Fiz Por Você o Que Pude", dedicada a Mangueira.
Cartola conseguiu trabalhos modestos, como o de lavador de carros e vigia de edifícios. Mas a entrada em cena de uma nova - e definitiva - mulher em sua vida alterou o seu destino. Quando Eusébia Silva do Nascimento, mais conhecida como Zica, o encontrou, o sambista estava em um estado lastimável, entregue à bebida, desdentado e sobrevivendo de biscates - sem contar ainda um problema no nariz, que tinha se tornado demasiadamente grande, devido a uma afecção denominada rinofina. Apesar disso, Zica, antiga admiradora de Cartola, se apaixonou por ele, conquistando-o. Zica o levou de volta ao Morro de Mangueira, onde o casal se instalou em uma casa na subida do morro, perto da quadra da escola de samba e próximo da casa de Carlos Cachaça e Menina (irmã de Zica). Com Zica, Cartola viveria até o fim de seus dias, sem, no entanto, deixar filhos.
Mesmo sumido, Cartola ainda foi lembrado em 1952, quando Gilberto Alves gravou o samba-canção "Sim" (parceria com Oswaldo Martins).

 

Em 1957, Cartola trabalhava como vigia e lavador dos carros dos moradores de um edifício em Ipanema. Nessa função, foi identificado em uma madrugada pelo jornalista Sérgio Porto (ou Stanislaw Ponte Preta ), sobrinho do crítico musical Lúcio Rangel (que havia dado ao sambista, anos antes, o apelido de "Divino Cartola"). Ao ver o compositor magro e maltrapilho em um macacão molhado, Stanislau decidiu ajudá-lo, começando por divulgar a redescoberta, que fizera, do sambista. Àquela altura, Cartola era dado como desaparecido ou mesmo morto por muitos de seus conhecidos e admiradores. O reencontro com o jornalista foi definitivo para a retomada de sua carreira como músico e compositor.
A promoção rendeu algumas apresentações na Rádio Mayrink Veiga e em restaurantes, além de matérias em jornais e revistas. Sérgio também arranjou para o sambista, por meio do cronista e pesquisador Jota Efegê, um emprego de continuo no jornal Diário Carioca em 1958 e, no ano seguinte, no Ministério da Indústria e Comércio. Em 195, foram gravados seus sambas "Grande Deus" e "Festa da Penha", respectivamente por Jamelão e Ari Cordovil. Em 1960, Nuno Veloso gravou "Vale do São Francisco" (parceria com Carlos Cachaça).
No início da década de 1960, Cartola se tornou zelador da Associação das Escolas de Samba, localizada em um velho casarão no centro do RJ, que se tornou um ponto de encontro de sambistas de toda a cidade. Além das rodas de samba no local, Zica - uma exímia cozinheira - passou a servir uma sopa aos participantes. Estimulado por amigos, Cartola e Zica resolveram aplicar a fórmula música-comida em um sobrado da rua da Carioca, também na zona central da cidade, em 1963. A iniciativa contou com o apoio financeiro de empreendedores considerados "mangueirenses de coração", como o empresário Renato Augustini.

Os bons tempos do Zicartola


O Zicartola se tornou um marco na história da música popular brasileira no início das década de 1960. Além da boa cozinha administrada por Zica, Cartola fazia as vezes de mestre de cerimônias, propiciando o encontro entre sambistas do morro e compositores e músicos de classe média, especialmente ligados à Bossa Nova, além de poetas-letristas como Hermínio Bello de Carvalho e jornalistas musicais como Sérgio Cabral. Velhos bambas, como Nelson do Cavaquinho e Zé Kéti, se juntavam a novos talentos, com Élton Medeiros e Paulinho da Viola. Além da presença constante de alguns dos melhores representantes do samba de morro, diferentes gerações de cantoras se encontravam ali, como Elizeth Cardoso e Nara Leão
No Zicartola, desafiado pelo amigo Renato Agostini, Cartola compôs com Élton Medeiros em cerca de 30 minutos o samba "O Sol Nascerá", que se tornaria um de seus grandes clássicos. A mesma facilidade para compor experimentaria em "Alvorada" um samba feito a seis mãos. Compusera com Carlos Cachaça a primeira parte de um samba que decidiram mostrar a Hermínio Bello de Carvalho, que escreveu então os versos da segunda parte, que ele musicou na hora.




Moda no Rio de Janeiro, o Zicartola inaugurou um gênero de casa noturna que viria a se propagar nas décadas seguintes. Apesar disso, o bar durou pouco e, mal-administrado, fechou as portas após dois anos de existência, pois seu dono definitivamente não tinha tino comercial. Em 1974, um bar chamado Zicartola foi aberto no bairro paulistano de Vila Formosa.
Ainda em 1964, Cartola e Zica se casaram oficialmente (às vésperas do casamento, ele compôs "Nós Dois" para ela), e o sambista atuou no filme "Ganga Zumba" (de Cacá  Diegues), no papel de um escravo (já havia atuado discretamente em "Orfeu Negro" e ainda participaria de "Os Marginais"). O samba "O Sol Nascerá" foi gravado por Isaura Garcia.
Em 1965, foi lançado o álbum com gravações do Show Opinião, no ano anterior, realizado entre Zé Kéti,João do Vale e Nara Leão - esta incluíu "O Sol Nascerá" (de Cartola e Élton Medeiros) no repertório do LP. Esta gravação tornou Cartola, assim como outros sambistas de seu círculo, conhecidos pelo público de classe média da época, projetando-os profissionalmente. Em consequência do prestígio que ganhou, Cartola chegou a ter seu nariz retocado pelo célebre cirurgião plástico Ivo Pintaguy. Pery Ribeiro e Bossa Três também regravam "O Sol Nascerá".

Ainda em 1965, Cartola iniciou a construção de uma casa (verde e rosa) ao pé do Morro de Mangueira, em terreno doado pelo então Estado da Guanabara. Naquele mesmo ano e no seguinte, fez participação em dois discos de Elizeth Cardoso, que gravou o samba "Sim"(parceria com Oswaldo Martins e Leny Andrade). Ainda em 1966, gravou com Clementina de Jesus seu samba "Fiz por você o que pude".
Em 1968, participou em duas faixas do LP "Fala, Mangueira", que reuniu, além dele, Nelson Cavaquinho, CArlos Cachaça,Clementina de Jesus e Odete Amaral. Também naquele ano, Cartola gravou com Odete Amaral"Tempos Idos" (parceria com Carlos Cachaça) e Ciro Monteiro gravou "Tive Sim".

A glória na velhice

Em 1970, Cartola protagonizou uma série de apresentações promovidas pela União Nacional dos Estudantes, intituladas "Cartola Convida", na Praia do Flamengo, onde recebia grandes nomes do samba. Também naquele ano, a Abril Cultural lançou um volume dedicado à sua obra na série "História da música popular brasileira", no qual o sambista interpretou "Preconceito" (de sua autoria). Em 1972,Paulinho da Viola gravou "Acontece" e Clara Nunes gravou "Alvorada" (com Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho). Em 1973, Elza Soares gravou"Festa da Vinda" (parceria com Nuno Veloso).
Mas a consagração definitiva viria somente em 1974, alguns meses antes de completar 66 anos, quando o sambista finalmente gravou seu primeiro disco-solo. Cartola, lançado em uma iniciativa do pesquisador musical, produtor de discos e publicitário Marcus Perei. O disco, que recebeu vários prêmios e foi considerado um dos melhores daquele ano, reunia uma coleção de obras-primas de Cartola e uma equipe de instrumentistas de primeira linha no acompanhamento. O sambista interpretou "Acontece", "Tive Sim", "Amor Proibido" e "Amor Proibido" (canções de autoria própria), "Disfarça E Chora" e "Corra E Olhe O Céu" (parceria com Dalmo Casteli), "Sim" (com Oswaldo Martins), "O Sol Nascerá" (com Élton Medeiros), "Alvorada" (com Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho), "Festa Da Vinda" (com Nuno Veloso), "Quem Me Vê Sorrindo" (com Carlos Cachaça) e "Ordenes E Farei" (com Aluizio).
Também em 1974, a mesma gravadora Marcus Pereira lançou o LP "História das escolas de samba: Mangueira", no qual Cartola interpretou algumas faixas. Pouco depois, durante uma entrevista ao radialista e produtor Luiz Carlos Saroldi, em um programa especial para a Rádio Jornal do Brasil, apresentou dois sambas ainda inéditos: "As Rosas Não Falam " e "O Mundo é um Moinho". Ainda naquele ano, o sambista participou do programa radiofônico "MPB - 100 ao vivo" - os programas foram editados em oito LP’s com o mesmo título e em um dos álbuns ocupou todo um lado, deferência só concedida a dois outros convidados, Luiz Gonzaga e Paulinho da Viola e se apresentou no bairro carioca de Botafogo, em que atuou ao lado da CAntora Rosana Tapajós e do flautista Altamiro Carrilho.
 Gal Costa regravou "Acontece".Logo depois, em 1976, a mesma gravadora lançou o segundo LP, também intitulado Cartola. O sucesso do álbum foi puxado por uma de suas mais famosas criações, "As Rosas Não Falam", incluída na trilha sonora de uma novela da Rede Globo. Ainda em seu segundo disco, Cartola interpretou suas composições "Minha", "Sala de Recepção", "Aconteceu", "Sei Chorar", "Cordas de Aço" e "Ensaboa". Gravou também as canções "Preciso me encontrar" (de Candeia), "Senhora tentação" (de Silas de Oliveira) e "Pranto de Poeta" (de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito). Também nesse ano, Clementina de Jesus gravou "Garças Pardas" (parceria com Zé da Zilda).
A grande popularidade obtida pelo samba levou Cartola a uma divulgação inédita de seu trabalho. Realizou seu primeiro show individual, no Teatro da Galeria, no bairro do Catete, acompanhado pelo Conjunto Galo Preto. O show foi um sucesso de público e se estendeu por quatro meses em várias partes do país.
Em 1977, o sambista dividiu com um novo parceiro, Roberto Nascimento, uma turnê por palcos do SESC, no interio de SP. Em meio ao grande sucesso, Cartola voltou a desfilar pela Mangueira, após 28 anos de ausência no desfile de carnaval. O seu samba "Tive, Sim" foi defendido por Ciro Monteiro na 1ª Bienal do Samba, promovida pela TV Record, e terminou classificado em quinto lugar no concurso. Também foi convidado pela Prefeitura de Curitiba para integrar o juri do desfile das escolas de samba locais, onde, pela primeira e única vez julgou um desfile das escolas. Beth Carvalho gravou com sucesso "O mundo é um moinho". Em junho de 1977, a Rede Globo apresentou o programa "Brasil Especial" número 19, dedicado exclusivamente a Cartola, e que obteve grande êxito. Em setembro daquele mesmo ano, o sambista participou (acompanhado por João Nogueira) do "Projeto Pixinguinha", no RJ,e depois em uma excursão pelas principais cidades brasileiras. O sucesso do espetáculo os levou a excursionar por São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.
Ainda em 1977, em outubro, a gravadora RCA lançou "Verde que te Quero Rosa", seu terceiro disco-solo, com igual sucesso de crítica. Um dos grandes destaques do álbum foi "Autonomia", com arranjo do maestro Radamés Gnatalli. Desse LP fazem parte o samba-canção"Autonomia", além de "Nós Dois" (composta especialmente para o casamento com Zica, em 1964). Recriou "Escurinha" (samba do mangueirense Geraldo Pereira, falecido prematuramente em conseqüência de uma briga com "Madame Satã"). Estão presentes ainda os sambas "Desfigurado", "Grande Deus", "Que é feito de você" e "Desta vez eu vou" (todos de sua autoria), "Fita meus olhos" (com Osvaldo Vasques) e "A canção que chegou" (com Nuno Veloso).

Últimas homenagens

Em 1978, quase aos 70 anos, se transferiu da Mangueira para uma casa em Jacarépaguá, buscando um pouco mais de tranqüilidade, na tentativa de continuar compondo, mas sempre voltava para visitar os amigos no morro onde crescera e se tornara famoso. A residência de Cartola e Zica em Mangueira era muito frequentada por músicos e jornalistas, o que levou o casal a procurar um pouco de sossego. Era finalmente a primeira casa própria do artista, o máximo que ele conseguiu com o sucesso obtido no final da vida. Em frente à sua porta, foi inaugurada em seguida uma praça apropriadamente batizada de As Rosas Não Falam.
Naquele mesmo ano, estreou seu segundo show individual: "Acontece", outro sucesso. E em novembro, por ocasião de seu septuagésimo aniversário, recebeu uma grande homenagem na quadra da Mangueira. O sambista, no entanto, já estava doente. Diagnosticado seu mal, câncer na tireóide, foi operado em 1978.
Ainda naquele ano, o sambista gravou com Eliana Pittman o samba "Meu amigo Cartola" (de Roberto Nascimento)) e, com Odete Amaral o samba "Tempos Idos" (parceria com Carlos Cachaça). Valdir Azevedo, João Maria de Abreu, Joel Nascimento e Fagner regravaram "As rosas não falam". Elizeth Cardoso regravou "Acontece" e Odete Amaral, "Alvorada". Durante a apresentação no Ópera Cabaré, em São Paulo, no mês de dezembro, o concerto foi gravado ao vivo, por iniciativa de J.C. Botezelli (responsável pelo primeiro disco de Cartola). Esse registro ao vivo só sairia em LP após a morte do compositor.
Em 1979, foi lançado Cartola - 70 anos, seu quarto LP no qual interpretou seus sambas "Feriado na roça", "Fim de estrada", "Enquanto Deus consentir", "Dê-me graças, senhora", "Evite meu amor", "Bem feito" e "Ao amanhecer", além de "O inverno do meu tempo" e "A cor da esperança" (parcerias com Roberto Nascimento), "Ciência e arte" e "Silêncio de um cipreste" (com Carlos Cachaça), "Senões" (com Nuno Veloso) e "Mesma estória" (com Élton Medeiros).
Ainda naquele ano, Nelson Gonçalves e Emílio Santiago, regravaram "As rosas não falam". Em fins de 1979, Cartola participou de um programa na Rádio Eldorado, da cidade de SP, no qual contou um pouco de sua vida e cantou músicas que andava fazendo. Essa entrevista foi posteriormente lançada em LP, na década de 1980, com o nome "Cartola - Documento Inédito". Em 1980, a cantora Beth Carvalho regravou "As rosas não falam" e "Consideração" (parceria com Heitor dos Prazeres). Com Nelson Cavaquinho, compôs apenas"Devia ser condenada", gravada pelo parceiro na década de 1980.
A carreira de Cartola não iria longe. Cartola sabia que sua doença era grave mas manteve segredo sobre ela todo o tempo. Para todos dizia que tinha uma úlcera.
Quando for enterrado, quero que Waldemiro toque o bumbo.

 Cartola, manifestando a sua família um desejo uma semana antes de sua morte - Almanaque da Folha

Três dias antes de morrer, recebeu de Carlos Drummond Andrade
 sua última homenagem em vida. O poeta lhe dedicou uma comovente crônica, publicada pelo Jornal do Brasil.
Cartola morreria de câncer em 30 de novembro de 1980, aos 72 anos de idade. O corpo foi velado na quadra da Estação Primeira de Mangueira, onde por lá passaram as mais diversas presenças do mundo da música; Clara Nunes, Alcione, Emilio Santiago, Chico Buarque, João Nogueira, Dona Ivone Lara, Nelson Sargento, Jamelão, Roberto Ribeiro, Clementina de Jesus, Martinho da Vila, Gal Costa, Simone, Elizeth Cardoso, Paulo Cesar Pinheiro, Beth Carvalho, Paulinho da Viola, Gonzaguinha, entre muitos outros. Seu corpo foi sepultado no Cemitério do Cajú. Dona Zica viu o corpo do seu grande amor pela última vez, abraçada com Clara Nunes, que era amiga e uma das "queridinhas" do poeta. Atendendo a seu pedido, no dia 1º de dezembro, data de seu funeral, Waldemiro, ritmista da MAngueira, que havia aprendido com ele a encourar seu instrumento, marcou o ritmo para o coro de "As Rosas Não Falam", cantada por uma pequena multidão de sambistas, amigos, políticos e intelectuais, presentes em sua despedida. Em seu caixão a bandeira do time do seu coração, o Fluminense.
 CARTOLA E DONA ZICA 


LUGARES,SAMBAS E BAMBAS 03


BAIRRO DO ESTÁCIOMORRO DE SÃO CARLOSTURMA DO ESTÁCIO
LARGO DA ESTÁCIO
Bairro tradicional, tem importância cultural por estar associado às origens do samba. Foi cantado nos versos de Noel Rosa e de outros compositores de primeira grandeza da música popular brasileira. É conhecido como o Berço do Samba, por ter visto nascer a Primeira Escola de Samba, em 1928, a Deixa Falar, fundada por Ismael Silva. Abriga a Escola de Samba Estácio de Sá, que já foi campeã do carnaval carioca.
A tradicional Igreja do Divino Espírito Santo remonta ao século XVIII. Abriga ainda a sede da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro
O seu nome é uma homenagem ao fundador da cidade,Estácio de Sá.
Atualmente, por estar bem integrado a região da Tijuca, o bairro vem sofrendo influência da especulação imobiliária do mercado. Além de estar próximo ao centro da cidade e ser bem servido por meios de transportes, o bairro foi beneficiado pela pacificação do Morro e Complexo de São Carlos, principal morro da região.
MORRO DO SÃO CARLOS




GRAVURA DA TURMA DO ESTÁCIO


                      
 A Turma do Estácio era um grupo de sambistas que freqüentava rodas de samba a partir do final da década de 1920, na cidade do Rio de Janeiro, e é tido como o berço do samba carioca por excelência, aquele pelo qual se conhece atualmente e celebrado não só no Rio de Janeiro, como também em diversas partes do Brasil e até mesmo do mundo.
Este samba feito firmou-se rapidamente como o samba carioca e marcaria a história deste gênero por injetar uma cadência diferenciada do samba baiano levado ao Rio de Janeiro pelas tias baianas e do estilo um tanto amaxixado surgido a partir da gravação de "Pelo Telefone" (registrada por Donga). A Turma do Estácio impôs um samba mais ritmado, formado por instrumentos como surdos,tamborins e cuícas, aos quais se juntavam pandeiros e chocalhos.
Em 1928, Ismael Silva, Bide, Mestre Marçal, Bucy Moreira, Baiaco, Brancura, Mano Rubem e Mano Edgar fundariam no Morro de São Carlos a Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba brasileira. Este grupo costumava freqüentar e fazer rodas de samba nos botequins Apolo e Compadre, na subida do Morro de São Carlos. Estas rodas atraíram gente de várias partes do Rio, entre sambistas de Benfica, Madureira, Providência e Gamboa, costumavam avançara a madrugada e muitas vezes não eram toleradas pela polícia.
Dentre alguns dos sambistas freqüentadores da Turma do Estácio, mas oriundos de outros morros cariocas, estavam futuros bambas como Cartola, Carlos Cachaça e posteriormente Nelson do Cavaquinho e Geraldo Pereira, Paulo da Portela, Alcides Malandro Histórico, Manacéa, Chico Santana, Molequinho, Aniceto do Império. Estes sambistas seriam responsáveis por criar e difundir o samba de morro.



CIDADÃO DO ESTÁCIOISMAEL SILVA


                     
Mílton de Oliveira Ismael Silva ,era filho do cozinheiro Benjamim da Silva e da lavadeira Emília Corrêa Chaves, era o mais novo de um grupo de cinco irmãos.
Diante das dificuldades financeiras enfrentadas após a morte de seu pai, mudou-se com a mãe da praia de Jurujuba (Niterói) para o bairro Estácio de Sá (Rio de Janeiro), quando tinha três anos de idade.
Ismael frequentou a escola primária e terminou o ginásio aos 18 anos, depois de morar em outros bairros do Rio de Janeiro como Rio Comprido e Catumbi.
Aos 15 anos fez o samba Já desisti, considerado como a sua primeira composição. Em 1925 teve o seu primeiro samba gravado: Me faz carinhos. Essa composição promoveu a sua aproximação com Francisco Alves, o Chico Viola ou Rei da Voz. Ao lado de Nilton Bastos e Francisco Alves, Ismael formou o trio que ficou conhecido como Bambas do Estácio e que deu origem àquele que é considerado um dos mais bonitos sambas da história: Se você jurar. Após a morte de Nilton, teve início sua contribuição com Noel Rosa. As dezoito composições da dupla fazem de Ismael Silva o mais frequente parceiro do Poeta da Vila.
Em 1928, Ismael Silva, com um grupo de sambistas do Estácio, fundou o bloco que se tornaria o precursor da primeira escola de samba de que se tem notícia: a Deixa Falar. A Deixa falar desfilou nos anos de 1929,1930 e 1931. Seu final ocorreu em função da mudança de Ismael para o Centro do Rio de Janeiro, após as mortes de Nílton Bastos e Edgar Marcelino.
Ismael foi condenado a cinco anos de cadeia - tendo cumprido apenas dois anos, devido a bom comportamento - após atirar em Edu Motorneiro, um frequentador da boêmia carioca. Depois deste episódio, ele se tornou recluso e só retornou à cena carioca na década de cinquenta. Sabe-se que durante esse período ele atravessou enormes dificuldades financeiras. Ainda nesta mesma década, teve o seu samba Antonico gravado. Foi um grande sucesso.
Seu reconhecimento como um sambista verdadeiro, lhe rendeu alguns títulos por iniciativa do jornalista e estudioso do assunto Sérgio Cabral e da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Fez alguns shows esporádicos, nos quais participaram Aracy de Almeida, Carmem Costa e MPB - 4. Um de seus últimos shows foi no ano de 1973, produzido por Ricardo Cravo Albim e intitulado Se você jurar.
Morreu em 1978 de um ataque cardíaco em decorrência das complicações surgidas após uma cirurgia para tratar de uma úlcera varicosa que tinha em uma das pernas.

Ismael Silva talvez tenha sido um dos sambistas a exibir a mais alta originalidade no cenário da boêmia carioca .
Suas composições mais conhecidas são: Me faz Carinhos, Se Você Jurar, Antonico, Para Me Livrar do Mal, Novo Amor, Ao Romper da Aurora,Tristezas não Pagam Dívidas, Me Diga o Teu Nome, entre outras.


                 

LUGARES,SAMBAS E BAMBAS 02


PORTELINHAPORTELÃOVELHA GUARDA



PORTELINHA


PORTELÃO

Portelinha e Portelão
A história da Portela remete aos idos de 1921, quando Esther Maria Rodrigues (1896-1964) e seu marido Euzébio Rosas, então porta-bandeira e mestre-sala do cordão Estrela Solitária, de Madureira, mudaram-se daquele bairro para Oswaldo Cruz, onde fundaram o bloco Quem Fala de Nós Come Mosca.
Uma dissidência desse bloco, comandada por Galdino Marcelino dos Santos, Paulo Benjamin de Oliveira(conhecido como Paulo da Portela), Antônio Rufino e Antônio da Silva Caetano, deu origem em 1922 a outro bloco, o Baianinhas de Osvaldo Cruz, que logo no ano seguinte adotou um estatuto e montou uma diretoria, fato que faz com que a data de fundação da Portela seja muitas vezes remetida erroneamente a 1923. O bloco, no entanto, não durou muito tempo.
Em abril de 1923, reunidos numa casa, onde também funcionava o Bar do Nozinho, na Estrada do Portela, número 412, Rufino, Caetano e Paulo decidiram criar um outro bloco, que teve seu documento de fundação assinado em 11 de abril de 1926, nascendo assim o Conjunto Carnavalesco Osvaldo Cruz, que teve Paulo da Portela como seu primeiro presidente.
Em 1929 acontece o primeiro concurso de sambas conhecido. Organizado pelo pai de santo Zé Espinguela, este concurso contou com a participação de sambistas do Estácio, da Mangueira e de Oswaldo Cruz, tendo sido divulgado por Zé Espinguela na coluna que ele tinha no jornal Vanguarda, e sendo vencido pelo Conjunto de Oswaldo Cruz.
Após esta vitória o bloco muda de nome para Quem nos Faz é o Capricho, por influência de Heitor dos Prazeres, que além de sugerir o nome, desenhou sua bandeira..
Em 1931, quando as escolas de samba ainda estão sendo definidas, o grupo muda novamente de nome, desta vez para Vai como Pode (na verdade, "Vai Como Pode", na grafia da época), um nome sem dúvidas mais humilde em relação ao anterior. Tal mudança foi motivada por uma briga entre seus integrantes, quando em 1930, Heitor dos Prazeres teria se apropriado dos direitos autorais de Rufino, registrando em seu nome o samba "Vai mesmo", prática comum entre os sambistas da época, mas não tolerada em Oswaldo Cruz. Após este evento, Heitor se afastou definitivamente da escola, indo para a agremiação De Mim Ninguém Se Lembra; Paulo também ficou um tempo afastado.
A nova bandeira da agremiação foi desenhada por Antônio Caetano, que passou a ocupar o cargo de presidente. Escolheu como cores o azul e o branco, que já eram associadas à agremiação desde 1929, e o modelo de bandeira, com faixas diagonais partindo de um círculo central, que mais tarde tornaria-se um padrão para a maioria das escolas de samba. Segundo Caetano, tal modelo seria inspirado na Bandeira do Sol Nascente, uma das bandeiras oficiais do Japão.. Também na mesma ocasião foi escolhida a águia como símbolo da entidade, pois esta simbolizaria, para Caetano, o vôo mais alto que os sambistas desejariam alçar.

Ainda em 1931, mesmo sem um concurso oficial, a agremiação apresentou-se com duas inovações em termos de escolas de samba, trazidas dos Ranchos: o enredo "Sua majestade, o samba", e uma alegoria de uma figura humana integrada por instrumentos de percussão.
Assim, a entidade disputou os concursos de Carnaval de 1932, 1933 e 1934, conquistando dois vice-campeonatos e um quarto lugar, tendo sido a denominação Vai Como Pode usada até 1935; nesse ano, dois dias antes do desfile das escolas de samba, no dia 1º de março de1935, por ocasião da renovação da licença da escola na polícia, o delegado Dulcídio Gonçalves recusou-se a renová-la, por considerar o nome como chulo e indigno de uma escola de samba. O mesmo delegado sugeriu no lugar a denominação atual "Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela", em referência ao logradouro Estrada da Portela, onde os sambistas se reuniam, bem como a um de seus componentes mais ilustres, Paulo da Portela. A mudança agradou bastante à comunidade, mesmo porque muitos já se referiam anteriormente ao grupo como "o pessoal da Portela". Nesse ano, a Portela foi pela primeira vez campeã de um desfile de escolas de samba.
Em 1939, a Portela foi novamente campeã com o enredo "Teste ao Samba", que é considerado por alguns como o primeiro samba enredo, muito embora os estudiosos majoritariamente entendam que o primeiro samba-enredo na verdade tenha sido o da Unidos da Tijuca em 1933.
Em 1941, após um desentendimento com o mestre-sala Manuel Bambambã, Paulo da Portela não desfilou. Paulo durante muito tempo brigou para que todos os componentes desfilassem devidamente fantasiados ou se não, vestidos com as cores da escola, porém no dia deste desfile ele voltava de uma apresentação em São Paulo, juntamente com Heitor dos Prazeres e Cartola, e estavam todos vestidos de preto e branco. Sem tempo de trocarem de roupa, combinaram assim de desfilar, os três, em cada uma de suas escolas de samba. Porém na vez de desfilarem pela Portela, Bambambã não permitiu que os outros dois, por não serem da escola e ainda não estarem devidamente vestidos, pudessem desfilar. 
Na verdade, Bambambã já tinha desentendimentos anteriores com Heitor, quando da passagem deste pela Portela, ocasião em Bambambã o havia esfaqueado. Na hora do ocorrido, poucos portelenses perceberam o que estava ocorrendo, porém, posteriormente ao desfile, muitos ficaram a favor de Bambambã, pois julgaram falta de coerência por parte de Paulo da Portela, que tanto havia brigado pelo respeito as cores da escola no desfile, querer desfilar daquela maneira. Após isso, Paulo da Portela jamais desfilou novamente por sua escola do coração.
Porém, durante as tentativas dos EUA de construir uma "relação de boa-vizinhança" com os seus vizinhos da América do Sul, Paulo da Portela foi escolhido para ser o modelo da criação do personagem Zé Carioca, bem como para representar o samba no exterior. Por conta disso a Portela excursionou pelos Estados Unidos, e acabou sendo apresentada no evento pelo próprio Paulo da Portela.
Nas décadas de 1940 e 1950, comandada pelo ilustre bicheiro Natal, que era amigo de Paulo da Portela, a escola conquistou inúmeros campeonatos, com destaque para o heptacampeonato consecutivo, entre 1941 e 1947. Durante o racha de 1947, quando da criação da FBES, a Portela preferiu manter-se na UGESB, com uma passagem de um ano pela UCES em 1950,e posterior retorno à UGESB no ano seguinte, até a fusão entre UGESB e UCES.
A sede da escola, no Bar do Nozinho, na Estrada do Portela, em Oswaldo Cruz, foi posteriormente transferida para outro endereço, no mesmo logradouro, posteriormente apelidado de "Portelinha". Devido ao tamanho considerado pequeno do local, as disputas internas de samba-enredo, durante a década de 1960, já não mais podiam ser realizadas em sua sede, sendo que para isso, a Portela passou a alugar o Imperial Esporte Club, em Madureira, numa localidade que à época era chamada de Magno, devido à Estação Magno. Pouco a pouco, a Portela passou a ser vista como uma escola pertencente à Madureira, até que em 1972, se instalou definitivamente no bairro, com a construção do "Portelão", sua nova sede, na Rua Arruda Câmara - posteriormente chamada de Rua Clara Nunes.


Velha Guarda
A Velha-Guarda da Portela de início era composta pelos irmãos Aniceto da Portela, Mijinha e Manacéa, e ainda por Alberto Lonato, Ventura, Alvaiade, Francisco Santana, Antônio Rufino dos Reis, Alcides Dias Lopes (mais conhecido por Alcides Malandro Histórico), Armando Santos e Antônio Caetano.
                                         
A formação que ficou mais conhecida foi com Jair do Cavaquinho,Guaracy, Monarco ,Casquinha, Cabelinho,Argemiro,Davi do Pandeiro,Casemiro,Serginho Procópio e as pastoras, Áurea Maria, Surica, Doca e Eunice, que participaram do documentário O Mistério do Samba que resultou no CD Tudo Azul.
Hoje comandada pelo Mestre Monarco a Velha Guarda se apresenta todo 1º sábado de cada mês no Portelão , onde é servida a famosa feijoada , com início ás 14:00 h    

                                                   


 CIDADÃO DA PORTELA - MONARCO



Hildemar Diniz ,nasceu no bairro de Cavalcanti, mas ainda criança foi morar em Nona Iguaçu. Aos 10 anos de idade mudou-se para Oswaldo Cruz, subúrbio do Rio e bairro de origem da Portela. Àquela época teve de perto contato com os sambistas da escola, integrando blocos e compondo sambas ainda pequeno. Também foi nessa época que surgiu o apelido, Monarco, como o próprio relata:

Quando cheguei em Nova Iguaçu, pequeno ainda comecei a me enturmar, fugir um pouquinho de casa e conhecer os amiguinhos. Foi quando um camarada tava lendo uma revistinha pequena... Gibi, era um gibi, Super-Homem, que tinha uns negócios... não sei o quê não sei o quê o Monarco não sei o quê...", aí eu comecei a rir. Achei gozado! Garoto bobo, eu tinha 5 ou 6 anos. Aí ele: "Tá rindo por quê, seu Monarco?" Aquilo bateu, ficou como um visgo ali agarrado. Todo mundo vinha, os garotos: "Monarco!", nas minhas costas me batendo, aí pegou...
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Em 1950 foi convidado a integrar a ala de compositores da Portela, sua grande paixão, onde mais tarde viria a torna-se líder da velha guarda mais popular do Brasil. Também tornou-se diretor de harmonia da escola. Nunca conseguiu ganhar uma disputa de samba enredo, mas sempre emplacou sambas de terreiro ou sambas de quadra, como são conhecidos. O mais famoso dele é "Passado de Glória", que já foi esquenta da agremiação em diversos anos e regravado por muitos intérpretes. Sua última disputa de samba enredo foi em 2007, com seu filho de Mauro Diniz e o presidente da Ala de Compositores da Portela, Júnior Scafura.
Seu primeiro disco solo - que o revelou também como intérprete - foi lançado em 1976, com sucessos como "O Quitandeiro" (com Paulo da Portela), "Lenço" (com Francisco Santana) entre outros clássicos que foram regravados por grandes nomes da MPB. Outro disco de sucesso, "Terreiro", foi lançado em 1980. Em 1995, Monarco ganha reconhecimento internacional com o CD "A Voz do Samba", lançado no Japão. Lançado pelo selo Kuarup, o disco lhe rendeu um prêmio Sharp de melhor cantor do gênero.
De linhagem nobre no samba, onde foi discípulo de Paulo da Portela, e música com melodias apuradas, de letras de qualidade louvável, Monarco figura entre os maiores sambistas da história. Entre seus grandes sucessos estão "Vida de Rainha", "Passado de Glória" e "Coração em Desalinho", parceria com Ratinho de Pilares, gravada por Zeca Pagodinho e que atingiu imenso apelo popular. Em 1999 a cantora Marisa Monte convidou Monarco e a Velha Guarda da Portela para o CD "Tudo Azul", de sua produção, que contou com participação de Paulinho e Zeca Pagodinho. Foi um grande divisor de águas, pois tornaram-se reconhecidas ainda mais as músicas do babas e da Ala mais tradicional da Azul e Branca de Oswaldo Cruz.
Em 2005, após um atraso devido ao Abre-Alas da Portela, onde funcionários da escola não conseguiram encaixar as asas da Águia a tempo do desfile, o último setor e carro da agremiação foram impedidos de desfilar, com medo do estouro do tempo regulamentar. Naquele setor era onde estavam exatamente os integrantes da Velha Guarda da Portela, entre eles Monarco, Tia Surica, Casquinha e tantos nobres do samba.
Em 2010, Monarco gravou seu primeiro DVD - "Monarco: A Memória do Samba" - no dia 28 de setembro, no Teatro Oi Casa Grande, Rio de Janeiro. O projeto vem com a promessa de se tornar um registro do mundo do samba que vai ficar na história. Desse DVD participam Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Velha Guarda da Portela e Família Diniz. Tudo sob a direção artística de seu filho, Mauro Diniz . Beth Carvalho também participa do DVD. Apesar de não poder comparecer ao show por conta da recuperação de um cirurgia na coluna, Monarco e sua banda foram à sua casa para gravar, juntamente com a madrinha do samba, a música "Lenço". A gravação foi exibida durante o show e está presente no DVD . O DVD faz parte de um projeto da ONG Oficina do Parque de preservar a obra do bamba portelense, que ainda traz um CD ao vivo do mesmo show, e a edição de um almanaque intitulado “Memórias de um Bamba”, com partituras e assuntos diversos sobre a vida, a música, as curiosidades e os casos vividos por Monarco, contribuindo na preservação de sua obra.